COMING DOWN FAST
Skelter

Sempre evitou olhar nos
olhos das pessoas que estavam na sua frente nos transportes coletivos. Mas
naquele dia, como que por obra do destino os dois livros que carregava na mão
caíram justamente aos pés de uma linda mulher de cabelos negros.
- Maldição! - pensou.
Rápido, envergonhado e com as mãos nervosas ajuntou os livros. Ao
levantar, ainda que involuntariamente, ele a fitou. E nesse momento percebeu um
esforço de parte da moça em descobrir o que ele lia. O calhamaço de 782 páginas
de "O Ser e o Nada", de Sartre, havia se espalhado bem na sua frente. O outro
volume era o manual do seu novo forno de microondas, mas isso ela não viu.
O microondas lhe bastava. Fogão não era necessário. Ele morava sozinho e
raramente ficava em casa. Seu apartamento era mais um depósito de livros, um
canto silencioso e frio onde as enormes cobertas de pena com capas de algodão
branquinho contrastavam com o amarelo das velhas edições de Neu Testament
Deutsch. Cama simples, mas convidativa, onde ele guardava as lembranças da
mulher que nunca havia encontrado. Tinha essa coisa por mulheres. As adorava sem
as mesmo conhecer. De repente, durante o almoço passava a observa-las, quieto. E
depois de cinco minutos tinha certeza que poderia se casar com qualquer uma
delas. E elas iam embora, ele voltava ao trabalho e a rotina lhe marcava o dorso
mais uma vez. A cada estação desciam mais passageiros.
A cada parada, mais lhe escorriam as gotas de suor das costas e colavam
sua camisa ao assento. Ela continuava ali - e o olhava constantemente. Lembrou-se
das palavras de uma antiga amiga, que sempre lhe dizia que tinha seus 45 minutos
sagrados de preparação antes de sair de casa. Nesse tempo ela se dedicava a
pentear os cabelos, escolher a roupa, o perfume e a atitude que levaria ao longo
do dia. "Nunca se sabe o que pode acontecer" - ela dizia.
- Eu deveria ter feito a barba.
Na sua camiseta azul clara se lia: "Zu Geil für diese Welt". Isso não
era cosia para se usar na frente de uma mulher tão linda. Tão pouco eram seus
nikes e sua calça jeans favorita há 4 anos. E isso lhe deixava cada vez mais
intrigado, pois ela continuava a lhe observar. O trem cada vez mais vazio.
Faltavam duas estações até o final da linha.
- Sartre costumava afirmar que o ser humano é condenado a ser livre, não
é? - ela disse, olhando em seus olhos e sem mover um músculo além daqueles que
fizeram sair de sua boca a sua voz ponderada.
- Er... Como? - ele balbuciou, saltando do banco e batendo o lado da
cabeça no vidro.
- Eu disse que Sartre...
- Ah sim, de fato.
"De fato?!" É isso que ele tinha a oferecer?, indignou-se. Mas ela
parecia interessada, e por isso colocou de lado a sua bolsa e apoiou os
cotovelos nas coxas para lhe dedicar mais atenção.
- Eu... aham... Acho que essa liberdade pressupõe responsabilidades, não
é? - ele disse.
- Isso depende. Existem momentos em que percebemos algo maior dentro de
cada um de nós, um desejo tão grande de liberdade, que somos capazes de cometer
atos que seriam normalmente considerados irresponsáveis.
Assim, sem mais nem menos passaram a conversar sobre isso por alguns
minutos. Foi quando percebeu a aliança em sua mão esquerda. Logo se lembrou de
que as alianças nos tempos de seus pais eram muito mais largas, vistosas,
ostensivas até. Será que a liberdade sexual e a banalização dos relacionamentos
teriam influenciado na largura das alianças? Poderia escrever sobre isso um dia,
mas foi interrompido por uma pergunta que o desmontou.
- Sempre gostei de usar saltos altos. Os homens não resistem. Você é um
deles?
"Sou o que? Um homem ou um dos que gostam de mulheres de saltos altos?"
- pensou.
- Os dois!
- Como?
- Sou os dois.
Ela franziu a testa por alguns segundos, mas logo deixou de lado a sua
dúvida para começar e lhe falar com uma voz mais baixa. Queria saber seu nome e
o porque nunca olhava para as pessoas quando estava ali no trem. Disse que logo
que lhe viu a primeira vez imaginou que ele era arrogante, mas depois foi
percebendo que ali se escondia alguém doce e extremamente sozinho. Contou de uma
manhã em que ele tinha uma penugem no lado da testa, e que ficar imaginando o
dia todo do que seria aquela coisinha branca e fofa. Chegou a fazer uma aposta
com uma amiga, que defendia que aquilo era pena de galinha e que ele
provavelmente era um filho de agricultor e coisa e tal enquanto ela insistia na
hipótese de que a pena era de seu travesseiro, um bem fofo e especial que ele
guardara desde a infância. Ele ouvia tudo assustado. Estava pasmo, não estava
acostumado a receber atenção daquela maneira.
- Prometi a mim mesmo que iria falar com você hoje.
- Eu?
O trem atravessava o cenário cinzento de uma Berlim em franca
reestruturação. Fotografia típica dos filmes de Wenders.
- Surreal. - balbuciou.
- Hein? - Digo, você é real?
- Tomara que sim.
Os diálogos eram cada vez mais confusos, mas a situação se apresentava
cada vez mais clara: havia uma atração entre eles, personagens de mundos
totalmente diferentes que experimentavam ali uma espécie de conexão que só a
paixão poderia estabelecer.
- Você desce aqui também?
- Sim, hoje, por sua causa vou descer. E você, por minha causa, vai
aceitar meu convite me acompanhar até aquele café.
Ele sorriu e passou a caminhar em direção ao Café Skelter, lugar que
nunca havia notado na redondeza, mas que se apresentava naquele momento como
sendo um local extremamente confortável, familiar até.
Estavam ali, sentados um diante do outro e mudos. Ela apontava as
agulhas de 15cm de suas sandálias por baixo da mesa em direção as suas canelas
enquanto seu olhar traduzia a felicidade de finalmente ter encontrado alguém
capaz de poder entende-la como ela é: mulher. De seu lado, ele se colocava no
início constrangido, mas depois bastante á vontade com as carícias daqueles que
(descobria ali!) eram seu objeto de fetiche: saltos altos.
- Maravilhosa.
- Posso ser. Vou ser. Porque você sempre sonhou comigo.
Um caneco com 500ml de cerveja não combinava com aquela mulher. Mas ela
o saboreou como se fosse a última gota de água no deserto. Ele não havia
terminado sua Warsteiner Pils de 300ml ainda. Mas sua boca continuava seca, seus
lábios tremiam e ao mesmo tempo começava aa perceber o lugar onde deveria estar,
afinal.
- Posso lhe acompanhar até sua casa?
Bobagem, ele pensou, se ela desceu na minha estação é claro que não
poderia morar por ali.
- Sabe que a liberdade a que Sartre se referia é um conceito mais amplo
que eu imaginava? Eu quero ser condenada a ser livre, porque no dia em que não
puder mais cumprir esta pena não me sentirei mais parte desse mundo. Quero fazer
o que tenho vontade sem a culpa de ferir aqueles que para mim são muito
importantes. Quero mais e melhor, quero agora.
Ela se levantara. O vestido justo e de tecido fino ressaltava os bicos
do seio perfeitamente definidos. Saiu andando, para fora do Café e o esperou na
rua, com os braços na cintura. Ele não podia negar que o som de seus saltos
altos naquele piso de madeira o havia excitado por demais. Pagou a conta e
sequer esperou o troco, que provavelmente lhe garantiria almoço por uma semana.
- Eu quero estar aos seus pés. Ele disse.
Ela levantou o braço e um táxi, surgido do nada, parou. Foi quando
descobriu que se tratava de uma Rainha. Foi levado até seu apartamento, onde
ficou por mais de meia hora sozinho na sala, bebendo um Jack Daniel´s com duas
pedras de gelo, que se diluíam lentamente no Bourbon lembrando-se de todas as
fantasias que já teve e reprimiu.
As luzes se apagaram e o ambiente ganhou uma iluminação obscura. Os
passos não tinham o mesmo som. Ele virou o rosto e viu: botas de vinil preto,
brilhando, e saltos de 15cm. Agulhas mais finas ainda que marcavam em seu ouvido
os passos daquela que ele já havia elegido como deusa.
- Tire sua roupa. Ajoelhe-se.
Nunca havia feito aquilo, mas sua destreza era impressionante. Em poucos
segundos estava ali, a 10 cm dos pés daquela mulher maravilhosa. De relance,
pode observar que ela usava uma calcinha muito pequena e preta, sem rendas nem
qualquer outro tipo de adereço. Um espartilho de couro parecia diminuir a sua
cintura pela metade. As amarras fortemente apertadas na sua coluna davam um ar
de superioridade ainda maior aquela Rainha. Uma coleira de couro com rebites de
metal cromado emoldurava seu rosto, delineado pelos cabelos presos para trás.
Depois de manda-lo ficar de quatro, ela lambuzou seu ânus com um creme
lubrificante. O geladinho lhe deixou em riste, o que foi logo corrigido pela mão
firme dela que lhe segurou pelos cabelos e colocou aquele escravo de volta ao
chão. Um dedo escorregou para dentro dele e o fez rebolar.
- Beije meus pés. Lamba meu salto.
As frases dela eram curtas e o tom de voz firme, que o fazia arrepiar-se.
Ele se dedicava a tarefa com voluntariedade e paixão. Foi quando sentiu o
primeiro golpe.
- SPLASH!
O braço daquela mulher lhe deferiu um golpe de chicote capaz de fazer
emergir todas as suas fantasias e arrependimentos de uma vez só.
- Agradeça, inútil.
- Obrigado.
- "Obrigado"?! Você não este esquecendo nada?
- Obrigado, minha Rainha.
- Assim está melhor. Traga-me aquelas cordas e deite-se na cama.
Prontamente depositou as cordas brancas e macias aos pés da Rainha e
deitou-se na cama. Ela passou a amarra-lo, calmamente, ao som de Cole Porter. O
processo de bondage levou mais ou menos 30 minutos, dos quais seu único prazer
foi poder observar de vez em quando os pés de sua Rainha. Depois de amarrado ele
foi suspenso, a dois metros do chão. Estava exposto, nu e com o corpo à mercê de
uma mulher que conhecera duas horas antes. Ela foi trocar de sapatos. Escolhera
uma sandália de com um salto muito fino, com 18cm, com tiras que se entrelaçavam
por suas pernas e a deixavam ainda mais soberana. Definitivamente aquela mulher
havia despertado nele sua maior obsessão: saltos altos em pés de mulheres
dominadoras.
- Já decidiu qual parte de seu mísero corpo vai me oferecer primeiro,
vadia?
Ela passara a chamá-lo com adjetivos femininos. E isso lhe dava a
impressão de que algo estava para acontecer. Ela abriu um estojo de onde tirou
um vibrador transparente e um strap-on preto de mais ou menos 20cm. O primeiro
passou logo a ser a peça principal daquilo que ela chamava de "aquecimento".
Brincava com ele ao redor do rabinho do escravo. Divertia-se com isso. Chegou a
ensaiar uma carícia em seu sexo, o que deixou o coitado ainda mais louco. Baixou
o pobre exemplar e vestiu o strap-on.
- Diga que você é minha puta e o que você quer.
- Como?
- SPLASHHHHHH... SPLASSSHHHH... Dois tapas na bunda o colocaram em seu
lugar.
- Sou uma puta, a sua puta e quero ser fodido por minha Rainha.
De uma vez só ela enfiou.
Pausa.
Começou a foder, devagarinho... Batia em sua bunda e mandava que ele
rebolasse. O desgraçado rebolava como uma vadia, mesmo não gostando da
penetração em si. Não se sentia bem, não estava confortável. Mas o olhar daquela
mulher o encantava, o fazia querer servi-la mais e mais.
Ela parou. Passou a desamarra-lo e então pediu que ele se ajoelhasse
diante dela. Seu rosto estava diante daquele espartilho que tanto lhe fascinara
e ele finalmente ousou tocar seu pênis. Auto gratificação não combina com
escravidão, chega a ser considerada uma afronta. E por isso foi punido. A Rainha
amarrou fortemente seu pênis assustado e murcho. Então passou a masturbar-se com
os outros dois vibradores. A imediata ereção causada por aquela cena maravilhosa
estrangulava seu membro e o fazia chorar de prazer e agonia.
- Misericórdia.
- Você merece. Mas só desta vez, porque ainda vai sofrer mais em minhas
mãos. Quero que goze em meus pés, quero que lambuze minhas sandálias com seu
sêmen.
Uma ejaculação quase que instantânea se seguiu. Nove jatos de porra
cobriram de um creme branco e quente aquela sandália azul marinho e as unhas
vermelhas.
- Tesão!
Foi a primeira vez que aquela mulher imponente demonstrou alguma
euforia. Ela deitou-se sobre uma mesa em frente ao exemplar submisso e passou a
se masturbar. Ele estava de joelhos e com o strap-on amarrado ao seu rosto
passou a enfia-lo na vagina de sua Rainha enquanto ela acariciava seu clitóris.
- Foda-me com isso como se fosse a última coisa que fizesse nesse mundo,
seu filho da puta.
Seus gemidos aumentavam e ele passou a sentir as coxas da Rainha
amassando sua cabeça e o rosto lambuzado. Ela desferia golpes de chicote nas
costas do rapaz, que gemia e continuava freneticamente movendo a cabeça em
direção ao corpo de sua Rainha. O strap-on preso a sua cabeça, com um enorme
dildo que parecia sair de sua boca davam-lhe ainda mais a impressão de que era
somente um objeto, nascido somente para fazer aquilo.
Ela gozou.
Pausa.
Ele, ofegante e encharcado de suor permanecia de joelhos em cima das
gotas de porra que haviam caído das sandálias de sua Mestra. Ela sentou-se na
mesa, diante dele. O olhar daquela mulher era ainda mais sereno do que quando a
encarou pela primeira vez, no trem. Os dois, ofegantes, finalmente se beijaram.
A última coisa que se lembra é de um tapa na cara e um lenço branco
vindo em direção ao seu nariz. Acordou num banco da Zoo Station. Em seu bolso,
uma foto. Era ela, vestida da mesma maneira e pisando sobre o corpo dele no chão.
Atrás da foto um recado simples, como um manual de microondas: "Isso é só o
começo. Um beijo. Mistress Persephone".