SONETO LVII

W. Shakespeare

Vosso escravo sendo eu, que mais esperar posso, Senão somente a vez de fazer vosso gosto?
O meu precioso tempo é só esse em que o vosso Desejo me mantém, como escravo em meu posto. Nem ouso reclamar contra a infindável hora
Durante a qual por vós, meu soberano, espero.
Nem no imenso amargor de quando fui embora,
Certa vez despedido, hoje pensar mais quero;
Nem me atrevo a inquirir ao cioso pensamento
Onde podeis estar e quais os vossos feitos.
Nada a atenção jamais desvia ao escravo atento,
Salvo o prazer que dais, sempre, aos vossos eleitos.
Tão puro é o tolo amor, que, no vosso querer,
Embora não me ameis, nada mau posso ver.



 





SONETO LVIII

W. Shakespeare

Deus me livre de ter a idéia descabida
De, escravo, restringir vosso tempo de gozo,
Ou de exigir me deis conta da vossa vida,
Eu, vassalo empenhado em fazer-vos dito!
Ah! deixai-me sofrer, assim, ao vosso mando,
A ausência em que me prende a vossa liberdade,
E os reveses da sorte ir, paciente, arrostando,
Sem ver, por isso, em vós, nem sombra de maldade.
Vivei, pois, à vontade. O vosso condão vence
O próprio tempo, nele influindo de tal jeito,
Que em tudo vos atende. A vós, certo, pertence Perdoar o crime, até, que hajais contra vós feito.
À espera eu fico e, embora infernal seja a espera,
Não maldigo o prazer que a alma vos refrigera.